Helena Ignez exibe seu primeiro longa em Goiânia

“Canção de Baal” será exibido no Cine UFG às 9:30 h da próxima quarta-feira, 26 de agosto, na mostra paralela do Perro Loco 3.

Narrativa livre para um filme barato e experimental
Por Luara Oliveira
Fonte: Revista PLANO B (edição de Inverno, n° 04). Texto gentilmente cedido pela TZ Editora.


Era outono e fazia frio na cidade de São Paulo. Ainda faltava meia hora para as cinco da tarde quando cheguei à portaria do edifício no centro da cidade. Ali, próximo à praça Roosevelt, onde frequentemente se encontram atores, atrizes, dramaturgos e outros profissionais ligados ao teatro, funciona a Mercúrio Produções que, naquela tarde, serviu de ponto de encontro para a entrevista com a atriz e cineasta Helena Ignez, sobre seu primeiro longa-metragem, Canção de Baal.

Ela própria abre a porta e me conduz gentilmente até o outro lado de uma sala comprida e colorida, ornada com uma varanda cheia de plantas. Pouco depois de indicar o sofá como assento, se pôs a falar de maneira serena, que em nada lembrou a jovem debochada e agressiva de A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla. Dona de um dos principais rostos do Cinema Novo e figura importante para o Cinema Marginal, Helena imprimiu seu nome nos créditos de filmes clássicos como Assalto ao Trem Pagador (1962) e O Bandido da Luz Vermelha (1968).

Seu mais recente trabalho é livremente inspirado em “Baal”, primeira peça escrita pelo alemão Bertolt Brecht, que narra as peripécias de um músico beberrão e mulherengo. Os diálogos foram mantidos integralmente, mas as cenas têm muita improvisação dos atores Carlos Careqa, Felipe Kannenberg, Djin Sganzerla, Beth Goulart, Simone Spoladore e outros. Elenco e equipe usaram como cenário as instalações e os arredores de uma fazenda na cidade de Bragança Paulista, em viagens curtas, feitas entre agosto e novembro de 2006. Dois anos mais tarde, o filme estreou no Festival de Cinema do Rio e, posteriormente, foi exibido na Mostra de São Paulo, na Mostra de Tiradentes e, para o mercado internacional, no Festival de Cannes em 2009.

Canção de Baal tem narrativa solta, não linear, flerta com o teatro e com vídeo experimental. O filme foi orçado em R$ 670 mil, mas realizado com aproximadamente R$ 60 mil. Parte desse montante módico saiu da conta bancária dos próprios realizadores e o restante do dinheiro veio do Canal Brasil, em parceria selada após executivos do canal terem assistido a um avant trailer com cenas extraídas do material bruto. A seguir, os principais trechos da entrevista cedida por Helena Ignez e por André Guerreiro Lopez, ator e diretor de teatro que, em Canção de Baal, estreou na direção de fotografia de longa-metragem.

Machismo escancarado e Brecht subversivo
Helena:
O que me impressionou em “Baal” foi o humor e a ironia com que Brecht expunha o machismo do personagem, um machismo selvagem, destruidor e camuflado na ordem natural das coisas. Eu sintetizei a peça na relação dele com as mulheres porque elas fazem parte desse jogo, sem as mulheres não existiria o machismo. O filme também tem um caráter político. No começo, há o interrogatório ao qual Brecht foi submetido durante o Macartismo, quando foi acusado de atividades culturais subversivas e antiamericanas. Esse questionamento pelo Senado norte-americano sobre o qual Brecht escreve não é muito diferente dos questionamentos que sofremos quando queremos produzir um filme.

Einstein passeia pelo Brasil
Helena:
O Einstein que aparece no filme é aquela figura popular que se tornou conhecida por todos. As falas usadas foram extraídas do livro A vinda de Einstein ao Brasil (escrito por Aguinaldo Prandini Riciere), cujo centro é uma entrevista cedida a um repórter brasileiro, na qual o físico fala sobre assuntos diversos, como a maquiagem das mulheres, o futebol e a Teoria da Relatividade, comprovada pelo eclipse do sol no Ceará em 1919, mesma data em que foi escrita a peça de Brecht.

Os atores e a fotografia digital
Helena: Eu e o André partimos de um conceito absolutamente idêntico para a fotografia do filme, o que queríamos era uma coisa só.
André: Apesar do tom de improvisação havia um rigor técnico muito grande. Não era questão de ligar a câmera e sair fazendo qualquer coisa, mas de realmente entender o que se queria de cada cena. Já filmei muita peça e não há nada pior que teatro filmado, é tão artificial. Por isso, queria que a câmera fosse inquieta e buscasse sempre o melhor ângulo de visão, para se entender o que estava acontecendo. Por esse motivo, eu já estava presente nos primeiros ensaios com os atores, observando o que Helena pedia e tentando traduzir o que seria isso em movimento de câmera. Não necessariamente eu seguia quem estava falando porque sabia que quanto mais clássico eu fosse menos eficiente seria esse trabalho.

Corpos nus sem apelo sexual
Helena:
Talvez por influência de minha origem indígena, a nudez é algo muito natural para mim, não é nada chocante ou estranha, e nem deveria causar qualquer tipo de constrangimento. Brecht pede que os personagens estejam nus, tanto que a peça causou um escândalo enorme quando estreou em 1923, na Alemanha. Ficou apenas cinco ou seis dias em cartaz. No filme, não se pode dizer que é uma nudez erótica, que induz a um tipo de comportamento sexual. No entanto, é nudez mesmo.

O momento da criação e as obrigações do set
Helena: Vejo que em uma produção convencional se pode dirigir um filme totalmente sentada, em frente ao video assist. Luz nas Trevas (continuação de O Bandido da Luz, recém-filmado por Helena) realizei assim. Pode cair um meteoro que você não tem possibilidade de filmá-lo. E se você atravessa para fazer algo diferente é desastroso, causa uma insegurança total nas pessoas. Hoje, o set é mais um lugar de obrigações bem realizadas do que de prazer de criação. Em Canção de Baal tive uma experiência muito oposta a essa.
André: O plano era fazer aquele filme. Se víssemos um pôr do sol lindo lá fora, pensávamos que cena poderia se adaptar a isso. Era a sensação de estar criando que unia aquelas pessoas naquele momento. Havia um acúmulo de funções na equipe por opção. Se fosse necessário levantar cenário, eu deixava a câmera e levantava cenário. Atores sugeriam iluminação para cena. Havia uma extrema liberdade no set, mas com uma condução muito precisa, para que as exigências profissionais fossem todas cumpridas. Seria impossível o filme ter sido feito de outra forma.
Helena: Todos que estavam ali acreditavam muito no que estavam fazendo.

Ficha técnica:

Canção de Baal (Brasil/2008)
Direção e roteiro: Helena Ignez
Elenco: Carlos Careqa, Felipe Kannenberg, Djin Sganzerla, Beth Goulart, Celso Sim, Wladimir Castro, Michele Matalon, Carlos Figueredo, Maeve Jinkings, Simone Spoladore.
Produção: Sinai Sganzerla, Ana Oliveira, Patrícia Godoy
Direção de fotografia: André Guerreiro Lopes, Aloysio Raolino
Montagem: Ricardo Miranda, Julia Martins, Guta Pacheco
Produtora responsável: Mercúrio Produções

Serviço:

Mostra Paralela - Perro Loco 3

Exibição do filme “Canção de Baal”
(Após a sessão, haverá um debate com a diretora do filme, Helena Ignez)
Local: Cine UFG - Campus 2
Data: 26 de agosto (quarta-feira)
Horário: 9:30 h
Entrada franca

Assista também o curta “Helena em Carne e Osso”, de Andréia Miklos (Produtora Fora da Lei), que documentou a passagem de Helena Ignez por Goiânia, há dois anos atrás:

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